terça-feira, junho 08, 2010

Depressão



A depressão
© Letícia Thompson

Quando se olha o mundo de fora é muito fácil dizer o que se deve fazer, como e até quando. Achamos soluções para todo mundo, desde que não estejamos envolvidos. É fácil falar da dor que não sentimos, do amor que não perdemos, dos problemas que não temos e da vida que não vivemos. Somos assim muito sábios quando o espinho não está em nós!...

Os altos e baixos são comuns a todo mundo. Ninguém vive em linha reta. E há pessoas que suportam mais facilmente as subidas e descidas da vida que outras, como umas pegam certas doenças e outras não. Há coisas que não se controla, pois se tivéssemos escolha, optaríamos sempre por uma vida sã.

A depressão é uma doença como uma outra não um capricho de quem deseja mais do que a vida pode oferecer. Só quem passou ou passa por isso sabe entender o que é. E como toda doença, deve ser reconhecida, entendida e tratada como tal. Infelizmente todo mundo não está preparado para ajudar em casos assim e tentam resolver os problemas mostrando que há pessoas mais infelizes. Contudo, não é possível minimizar a dor de ninguém, fazendo-o comparar sua infelicidade com as misérias do mundo. Ninguém pode se sentir melhor porque do lado de fora há mais sofrimento. Se fosse assim, seria fácil ir dormir feliz a cada dia, bastando assistir ou ler jornais.

É claro que muitas vezes vemos uma coisa triste e pensamos no quanto somos abençoados por não vivermos aquilo. Isso é normal para todo mundo, nos faz refletir sobre a realidade da vida. Mas se passamos nossa vida com comparações não vamos a lugar nenhum, pois sempre haverá parâmetros diferentes e acabaremos nos sentindo perdidos.

Precisamos respeitar a dor e sentimento do outro, como respeitamos os limites do seu jardim. Cada vida é única, é própria. Podemos ajudar uma pessoa depressiva mostrando-lhe o lado belo da vida, dando-lhe razões para olhar além do horizonte, criar objetivos e acreditar neles. Podemos tirá-la do isolamento em que se encontra dando-lhe palavras de reconforto e amizade, fazendo-a sentir-se amada e útil. Dizer a um depressivo que seus problemas são mínimos porque há coisas piores na vida não o fará sentir-se melhor.

Quando Jesus se referiu à pessoas com problemas e ansiedades, mandou que olhassem os lírios dos campos e as aves no céu e se repousassem, apontou para coisas bonitas e alegres, nunca disse para olharem os necessitados. E Ele teve, também, Seu momento de dor, tristeza e lágrima, como todo ser humano.

As soluções para os problemas começam com o reconhecimento deles. Ter amigos que possam compreender já é um passo na direção da cura. A compreensão da dor do outro leva-lhe segurança. E, segura, uma pessoa poderá se levantar e recomeçar seu caminho, com toda ajuda que ela deve ter.

Depressão? Uma doença sim. E médicos são úteis. Amigos são preciosos. Orações são imprescindíveis.

sexta-feira, junho 04, 2010

Amigos



Amigos loucos e sérios
(Marcos Lara Resende)

Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade.
Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Louco que senta e espera a chegada da lua cheia.
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Pena, não tenho nem de mim mesmo, e risada, só ofereço ao acaso.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos, nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou, pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

quarta-feira, junho 02, 2010

A difícil arte da paciência



A difícil arte da paciência
© Letícia Thompson

Ai, que esperar cansa! E causa desânimo! E pré-ocupa nossas mentes.

Por que preocupar tem sempre uma conotação negativa, se na realidade significa ocupar com antecipação? Deve ser por causa dessa nossa mania de que quando devemos pré-ocupar nossa cabeça, já pré-ocupamos com problemas, tragédias, coisas ruins. Alguns, mais sábios, pré-ocupam com sonhos, mas nem mesmo chamam isso de preocupação.

Sabemos perfeitamente como funciona a vida e que precisamos saber esperar o que não temos controle. Mesmo as flores esperam sua hora de desabrochar.

E pra vida não queremos esperar. Queremos desejar e no minuto seguinte ver o resultado, como se não fosse preciso à maturação dos nossos desejos. Trazemos para nós, antecipadamente e muitas vezes inutilmente, doenças físicas e espirituais.

Muitas vezes pegamos um atalho e chegamos mais rápido, mas com isso perdemos muito da beleza do caminho. Chegamos mais cedo sim, mas de certa forma alguma coisa ficou faltando. Não é assim com as crianças e adolescentes que vivem cedo demais à vida adulta?

Se colhermos uma flor em botão, impedimos a ela e a nós a sua plenitude.

Mas que é difícil ser paciente, isso é! Há horas em que queremos pegar o relógio do tempo e girar os ponteiros com nossas mãos para que o dia seguinte chegue logo; queremos dormir muito para não ver as horas se desfilando graciosamente diante dos nossos olhos; queremos pensar em outras coisas, mas não conseguimos.

Sacrificamos, dessa forma, nosso presente, por um futuro desconhecido, que nem sempre será de acordo com o que pensamos.

Pessoas que esperam por um dia feliz jogam fora a felicidade do presente com a ansiedade do amanhã.

Pior é quando esperamos pelo resultado de um exame com probabilidades negativas. Aí então, nosso hoje fica realmente perdido. Choramos antes, temos dores de cabeça antes, não dormimos antes... O presente torna-se não somente inútil, mas quase insuportável. Não temos, infelizmente, essa capacidade gloriosa de nos dizer: "deixa para eu sofrer para quando souber do resultado definitivo e se não for o que se espera, não sofri por nada."

Se há um tempo para todas as coisas, deixemos então que cada coisa chegue à sua vez. Vamos abraçando-as uma a uma à medida que chegam até nós, vivendo o minuto presente que é a graça diária que Deus nos oferece.

Aprender a paciência é uma arte, provavelmente a mais difícil de todas. Ela exige muito de nós, exige autocontrole, exige determinação.

Viva o hoje! Viva a hora de agora! O amanhã pode tanto esperar por você quanto você espera por ele.